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Aramis

Toquinho e Vinicius e as férias baianas de Gil/Gal/Caetano.

O lp de Vinicius & Toquinho na Phonogram há muito vinha sendo aguardado. Contratado em 1968 pela RGE, de São Paulo, Toquinho levou para aquela gravadora o seu amigo e parceiro Vinicius de Moraes, fazendo uma série de lps alegres, felizes, descompromissados - com a participação de outros artistas (Marilia Medalha, Maria Creuza, Ciro Monteiro) e influindo, diretamente, nos lps individuais de Maria Medalha e Maria Creusa. A música feliz que Vinicius & Toquinho vem fazendo desde princípios de 1970 foi apelidada de easy music e criticada por alguns jornalistas ortodoxos que não aceitam esta fase mais descompromissada do poeta de "O [Operário] em Construção". Ficam a cobrar de Vinicius uma presença política [contestatória] (mesmo problema que sofre Nara Leão), achando que caba a ele tomar uma posição política [contrária] [à] uma situação que pode não agradar a muitos. Aos 62 anos, feliz ao lado de sua sétima esposa - a bela morena Gessy, Vinicius tem trabalhado bastante: em 1970, com o espetáculo "Encontro", ao lado de Toquinho, Maria Creuza e o Trio Mocotó, fez longas temporadas na Guanabara e São Paulo, além de parte do roteiro universitário. A 27 de dezembro de 71, a nosso convite, veio inaugurar o Teatro do Paiol - já com Marília Medalha substituindo a Maria Creuza, que por motivos de gravidez teve que pedir alguns meses de "férias". No ano passado, com a cantora Clara Nunes e substituindo o Trio Mocotó por um excelente trio instrumental (Luiz Roberto no baixo, Mario na bateria e na flauta), Vinicius e Toquinho apresentaram outro bonito [espetáculo] em [várias] capitais - inclusive suas sessões no Paiol. Após um merecido repouso, em maio último, eles voltaram ao palco, desta vez com o Quarteto em Cy, e um outro grupo instrumental num espetáculo idealizado por Toquinho, em homenagem [à] amizade de Vinicius com Pablo Neruda (1). Após uma dezena de apresentações com casa lotada (1.200 lugares) no TUCA, em São Paulo, o [espetáculo] foi levado a algumas cidades do Interior de São Paulo e apesar de um derrame no joelho ter obrigado o internamento do Poeta em Lins, só 3 cidades das que haviam sido programadas pela Clack - novos [empresários] da dupla, deixaram de assistir o bonito espetáculo. Agora, descansando em Salvador - onde conclui uma [confortável] casa na praia de Itapoã, Vinicius prepara-se para uma viagem de 30 dias [à] Europa, com dois grandes amigos - Calazans Neto e Jorge Amado. Quando retornar, vai levar o [espetáculo] ao Norte-Nordeste e, lá por outubro talvez volte ao Sul, quando então virá ao Paiol. Embora particularmente, Vinicius deseje parar por algum tempo. Sabe, Aramis, eu quero completar os meus dois livros há muito iniciados", dizia-me ainda há 40 dias, no bar do Hotel Cas D'Or, onde sempre se hospeda quando vai a São Paulo. xxx Enquanto Toquinho ainda estava contratado pela RGE, Vinicius, projetava gravar um lp [sozinho], chamado "Vinicius Triste" e onde reuniria suas composições mais [românticas]. Um disco [melancólico], muito bem produzido - talvez uma espécie de "A Man Alone"- o último grande disco feito por Frank Sinatra. Mas como este projeto não pode ser executado, Roberto Menescal, diretor do setor nacional da Phonogram, convocou Paulinho Tapajós, 26 anos, filho de Haroldo Tapajós, parceiro e amigo de Vinicius em sua juventude (2), para coordenar a produção do novo disco da Dupla o primeiro naquela fábrica. Feito rapidamente, a tempo de ser lançado ainda durante a excursão da dupla pelo Interior de São Paulo, o lp é, para Toquinho, o melhor que já fez, assim como se orgulha do [espetáculo] que bolou. Amigo de Gianfrasco Guarnieri, de quem musicou muitas letras, Toquinho conhece teatro a fundo e não esconde projetos mais sérios neste setor. Assim, o [espetáculo] em homenagem a Neruda foi por ele idealizado. Sem ser uma trilha sonora deste terceiro show, o disco não deixa de representar a preservação de alguns de seus melhores momentos. Embora gravado em estúdios, com arranjos de Edu Lôbo, Francis Hime e Zé Roberto, nas 11 faixas existe aquela alegria, aquela felicidade que marca a atual fase do trabalho de Vinicius e Toquinho, com letras [agradáveis], que sem deixar de terem uma profundidade um pouco de crítica têm uma fácil identificação. Assim, eles iniciam o lado 1 com a irônica "Como é duro Trabalhar" (3,46), em que um arranjo perfeito precede primeira estrofe, com um som quase [sinfônico]: Vou caminhando, caminhando À Procura de um lugar "Samba da Volta" (2,50), a segunda faixa, é explicada pelo próprio Vinicius como uma resposta ao "Regra Três", o grande sucesso que fizeram em 72: Você voltou Meu amor Alegria que me deu Quando a porta abriu /Você me olhou Você Sorriu "A Carta Que Não Foi Mandada (lado 1, faixa 3) e "Carta ao Tom 74"(faixa 5, lado 1) são dois momentos epistolares-musicais, uma espécie de revisão daquela Cartinha ao Tom, que há 10 anos, Vinicius lia durante um histórico show produzido por Aloysio de Oliveira na boite Zum-Zum, ao lado do Quarteto em Cy, conjunto de Oscar Castro Neves e seu amigo Caymmi. Em "A Carta Que Não Foi Mandada" o arranjo (possivelmente de Edu Lôbo) valoriza as cordas, para criar o clima em que Vinicius fala ao seu amigo Tom - de Paris, outono de 73, uma poesia do melhor nível - declamada/cantada com imensa ternura. "Samba para Vinicius" é uma homenagem ao poeta prestada (e interpretada) por dois de seus melhores amigos - Toquinho e Chico Buarque. Aliás, já é grande o número de [músicas] feitas em saudação ao grande poeta, destacando-se entre elas "O Feitinho Pro Poeta" que Johnny Alf compôs no início dos anos 60 e que teve no extinto Jongo Trio a sua melhor gravação. Aqui, neste "Samba Pra Vinicius", Toquinho e Chico dizem um pouco da muita, e justificável admiração que tem por este grande brasileiro. Em "Triste Sertão" (faixa 4, lado 1), há um arranjo bem urbano, [rápido] para uma canção que aparentemente deveria ter uma linha rural: as vozes do Quarteto em Cy retorna no belíssimo "Canto e Contraponto"(3,03), que encerra o lado 1. Com relação ao "Carta ao Tom 74" uma observação: colagem da produção feita em parceria com Antonio Carlos Jobim, é um suave panorama de uma época muito feliz de nossa MPB. São 10 anos de música nos 2,40 minutos desta faixa enternecedora. xxx No lado 2, após o "Samba Pra Vinicius", temos o momento de reflexão do lp: "Sem Medo". Uma letra inteligente, bem construída - e que é um hino de esperança. Mas a [propósito], é em "As Cores de Abril" (faixa 4, lado 2), marcha-rancho que Vinicius confessar ter criado "com espírito de Lamartine Babo baixado em mim", está o carro-chefe, em termos de comunicabilidade, deste lp. Outro hino de esperança e amor, sugestivamente criado no mês em que acontecia a revolução portuguesa, e com a qual Vinicius encerra o seu [espetáculo], falando de paz, amor e confiança nos jovens. "Samba do Jato", em seus 3,42 minutos, é outro samba agradabilíssimo - numa linha de dois outros [clássicos] - "Samba do Avião" (Tom) e "Samba de Orly" (Chico/Toquinho/Vinicius), em que a suavidade das imagens (o galo cantou/meu sonho acordou/eu madruguei chutando pedras pelo chão/com a solidão do lado) tem nas vozes de Toquinho e Vinicius um emolduramento perfeito. Por último, "Tudo Na mais Santa Paz (3,40 minutos) é um complemento perfeito, com muitas indagações a espera de respostas. Acabou a festa amor Ainda tem uma cerveja no congelador Vamos ao que resta, amor Dia de festa é [véspera] de muita dor. xxx Ouvindo-se Vinicius & Toquinho, conhecendo-se estas duas pessoas de extraordinária dimensão artística-cultural e, principalmente como GENTE, não tenho dúvidas: se o que eles fazem é a easy music, que bom seria se todos os nossos compositores fizessem esta easy music. Pode ser que muitos não concordem, mas pessoalmente não tenho [dúvidas]: este disco já tem lugar garantido entre os 10 melhores do ano. E não é por amizade, não! xxx "Temporada de Verão" (Philips, 6349108, março/74) é um lp gravado ao vivo que reúne os melhores momentos das temporadas que Gilberto Gil, Gal Costa e Caetano Veloso realizaram no Teatro Vila Velha, da Bahia, durante o último verão. Como escreveu o compositor e [crítico] Nelson Mota ("Sons de Hoje", O GLOBO, 25/4/74), talvez até o título já contenha a idéia de férias, de período de tempo mais destinado a desfrutas do trabalho realizado anteriormente do que marcar o início de novas propostas, inquietações e rumos imprevistos. Justamente esta aparente simplicidade - que parece ser tão desprezada pelos jovens consumidores, sempre exigindo novos "avanços" de nossos melhores intérpretes, dê a este lp uma dimensão que os mais bem trabalhados álbuns produzidos, com esquemas de produção caríssimos, não [têm] conseguido. Por exemplo, absolutamente dentro da idéia de férias aparecem as duas faixas de Gal Costa, que interpreta com a mesma exatidão e rigor de seus últimos e maduros trabalhos uma música inédita de um novo compositor baiano ("Quem Nasceu", Péricles Cavalcanti) e recria um dos mais bonitos sambas de Cartola, "Acontece". Nestas duas faixas Gal exibe o requinte vocal que vem apresentando em seus últimos discos e espetáculos mas não inclui nenhum dado novo em sua forma de cantar ou qualquer outra proposta musical que já não tivesse contida em seus últimos trabalhos. E concordo, integralmente com Nelsinho Mota, de que não há nenhuma necessidade de cobrar da Gal "novos passos". Pois ela tem uma ótima precisão vocal (no sentido de João Gilberto) que ela exibe no disco, esgotando os recursos do instrumento de sua voz. Já a presença de Caetano Veloso pode ser definida como "poderosa", confirmando mais uma vez ser ele, além de compositor, um extraordinário cantor que sabe manejar com inteligência e invenção a sua voz, imprimindo novas cores a músicas já conhecidas ("De Noite na Cama") ou emprestando novos e deslumbrantes significados a músicas de outro tempo como é o caso de sua [antológica] recriação de "Felicidade Foi Embora" de Lupiscinio Rodrigues. Nesta canção, acompanhado apenas por violões e uma viola, num arranjo de sensibilidade e elaboração, Caetano canta com grande emoção e proporciona um espetáculo raro da arte de cantar com precisão e inteligência. Como disse Mota, "ele sabe perfeitamente o que está dizendo, na forma que escolheu, o que está sendo raro na música brasileira, onde poucos [têm] sequer idéia do que estão cantando e agem como instrumentos amestrados, perdidos em virtuosismos [inúteis[ ou, pior que isso, em aparentes despojamentos que escondem a real ausência da emoção e da compreensão maior do que o que estão cantando". Uma terceira música de Caetano Veloso [dá] já outra dimensão de seu talento: "O [Conteúdo]", onde ele propõe concreta e objetivamente novos rumos em seu trabalho (como é o caso de disco), sua capacidade de invenção ao manejar a sua voz, fixando de maneira clara os conceitos que justificam a permanência e [importância] de um "[intérprete]", aqui entendido como veículo entre o compositor e o público, que enriquece a criação do compositor na trajetória e entrega ao público um trabalho pronto e rico em significados, intenções e invenções. Já com Gilberto Gil acontece um trabalho diferente. O baiano não conhece o significado de "férias" e sua participação em quatro faixas deste disco é mais uma brilhante etapa da revolução permanente que é a sua carreira de cantor/compositor. Inquieto, criativo, de invenção inesgotável, Gilberto Gil proporciona momentos excepcionais ao longo de suas faixas gravadas ao vivo, justamente quando explode mais forte o seu temperamento artístico. E em Gil, tudo soa novo, inédito, forte, imprevisto, como é o caso da regravação de seu próprio "O Sonho Acabou", agora numa longa interpretação acrescida de citações, toques, fazendo de uma música um universo aberto a mil brilhos e significados gerados por sua visão lúcida e inteligente do que representa ser um artista criador do Brasil de hoje. E tudo com um swing que é raro em nossos cantores e acompanhado por um grupo de grandes [músicos] que encaram e enriquecem a sua barra por si só pesadíssima. Em "O Relógio Parou", de Jorge Mautner, que abre o lado B do disco, Gil mostra humor, espontaneidade, vontade de cantar, exibindo toda a sua força criativa. "Terremoto" (João Donato - Paulo Cesar Pinheiro) e "Cantiga do Sapo" também tem interessantíssimas interpretações de Gil. Com acompanhamentos de seus amigos-companheiros - os pianistas Aloísio Milanez e Antonio Perna; Tuty Moreno na bateria; Dominguinhos, no acordeon, entre outros, "Temporada de Verão" está entre os melhores discos já feitos por Cae/Gal/Gil - e uma das mais criativas gravações ao vivo aparecidas este ano no Brasil. NOTAS (1) Há alguns meses Vinicius de Moraes lançou em Salvador uma edição limitada de "História Natural de Pablo Neruda" (A Elegia Que Vem de Longe), ilustrada por Calazans Neto, Edições Macunaima, 1974). (2) Em 1933, quando obteve o diploma de bacharel, sem ter nada o que fazer (vivia de mesada dos pais) escreveu letra para um fox (Dor de uma Saudade, com música de S. Meina) e uma valsa ("Canção para a distância"). Em música já não era inédito, pois um ano antes, 1932, fizeram o fox "Loura ou morena" de parceria com Haroldo Tapajós.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Nenhum
Música Popular
51
14/07/1974

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