Francesco Quinn: "Não é fácil ser filho de peixe!"
Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 23 de junho de 1985
NOVA IORQUE - "Para os filhos é difícil começar, se os pais são famosos. Exigem mais de nós que dos outros. E se também somos bons, quem sabe melhores que os outros, os méritos não serão nunca totalmente nossos". Há muita verdade nas palavras de Francesco, filho do ator americano Anthony Quinn, um dos mais famosos do mundo. E muita honestidade, também, quando reconhece que para ele ser "filho" quis dizer muitas portas abertas, embora uma vez "dentro" sempre tivesse de demonstrar o seu valor. E por si só. Mas o ponto é justamente aquele: conseguir demonstrar se vale ou não. Neste sentido o rapaz reconhece ser um privilegiado. "Conheço muitos jovens, bons, sérios, preparados, mas desconhecidos, que há anos perseguem inutilmente a oportunidade, a ocasião de mostrar seu valor". "Quo Vadis", por exemplo, é o seu primeiro filme, sua oportunidade. Antes nunca foi sequer coadjuvante. Teatro, sim, muitíssimo e com notáveis reconhecimentos. Francesco no telefilme interpreta o papel do Marco Vinício. O diretor Franco Rossi disse por sua vez ter decidido prová-lo porque gostava do rosto de Francesco cuja imagem física se parecia com a do Marco Vinício. Havia testado também outros atores. Mas Francesco Quinn agradou-lhe mais. Inconscientemente, porque usa esse nome?
"Só em pensá-lo para mim é uma ofensa".
Muito bem, então é o "filho" de Anthony Quinn. E diz ainda Rossi que o teria escolhido mesmo que se chamasse João dos Anzóis...
UM AMOR "HISTÓRICO" E UMA CORAGEM... PATERNAL
Em "Quo Vadis" Francesco é Marco Vinício, jovem patrício romano, nascido e crescido no mito do poderio imperial, certo do seu direito de comandar, de impor as razões do mais forte, segundo uma filosofia pela qual, naquele tempo, existiam só dominadores e escravos, os romanos e os outros. Apaixona-se, porém, e o seu é um sentimento "comum a todos os jovens da sua idade, por uma jovem, Lícia, estrangeira, filha de rei, entregue como refém em garantia de um pacto de não beligerância. E o amor, quando é verdadeiro, quando é profundo, já não faz disjunções entre poderosos e fracos. É um dos fios condutores de "Quo Vadis?" A delicada, sensível aventura destes dois jovens que o amor justamente conduz a um fim extraordinário: entre os primeiros cristãos, gente que à vingança prefere o perdão, que prega a igualdade entre os homens.
"Considerava muito este filme. Havia lido o roteiro e estava convencido de poder fazê-lo. Sentia isso". Francesco Quinn diz isso agora, quando está tudo feito e quando as primeiras apreciações sobre a sua interpretação já lhe chegaram dos Estados Unidos, onde reside. Mas, e antes? "Conhecia Franco Rossi, diretor rigoroso. Confesso ter ficado com medo no dia em que o enfrentei para uma prova. Estava a ponto de renunciar. Mas lembrei-me do meu pai, que desde criança sempre me repetia: "Se tem medo de uma coisa não a faça. Mas não a fazer é sinal de fraqueza". A coragem voltou-me. Rossi escolheu-me e sou-lhe muito grato".
DOIS ORGULHOS E UM IDEAL
Francesco Quinn, 22 anos, romano de nascimento, filho de Anthony Quinn e Iolanda Addolori, deixou a Itália há poucos anos mal completados os estudos. Em Nova Iorque freqüentou a universidade e o "HB Studio" seguindo também os cursos de mímica, danças e artes marciais.
"Pensava - e ainda penso - tornar-me diretor, mais que ator". O pai, Anthony Quinn, é um ponto certo de referência, um "modelo" para Francis. "Para meu pai, qualquer ofício teria sido bom, uma vez que feito com seriedade e bem".
Francesco tem orgulho do pai, como Anthony o tinha do seu. "Meu avô" - diz Francesco, com altivez não disfarçada - "foi companheiro de Pancho Villa durante a revolução mexicana. A família dos Quinn era muito pobre. Meu avô era mexicano, minha avó irlandesa. No seu livro "O Pecado Original", meu pai escreve que quem teve fome como ele nunca conseguirá esquecer isso. Nasceu justamente durante a revolução. Construiu sua vida, não dia a dia, que é já um longo espaço tempo, mas minuto a minuto, com pouquíssimo, quase nada na mão. Apenas, dentro, uma grande obstinação". Ele, Francesco, por outro lado, nasceu no tempo do bem-estar: "Tudo para mim foi infinitamente mais fácil".
LEGENDA FOTO - Francesco Quinn: a sombra do pai inibe.
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